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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

DUPLIPENSAR É SÓ PENSAR




* Weber Abrahão Júnior

A boa ficção científica como gênero literário e artístico é sempre uma reflexão sobre o tempo presente do homem e do mundo. Se ela fala a partir de uma exaltada sofisticação tecnológica, para o bem ou para o mal, é mais fantasia que previsão.

George Orwell escreveu sua obra mais famosa em 1948. Ao inverter oito e quatro, nomeou o livro: 1984.  É uma distopia, pesadelo de uma sociedade perfeita em seu totalitarismo como negação absoluta da humanidade do homem e do mundo. De fato, Orwell criticava o stalinismo como deturpação da utopia marxista em seu tempo, situando texto e contexto no futuro, mais por conveniência literária do que por qualquer pretensão oracular.

Nos final dos anos trinta (1939) Orwell escreveu Um pouco de ar, por favor. Menos conhecido, o texto é construído em primeira pessoa, situando um solitário urbano arrastando-se de apneia e tédio pelas ruas de Londres às vésperas da invasão nazista na Polônia, início da Segunda Guerra. Em um tempo suspenso e desesperançoso, que não dá mostras de avançar em direção a qualquer lugar, o personagem lentamente refugia-se no passado, na infância de suas memórias.

Ali já encontramos rudimentos do conceito de “duplipensar”posteriormente desenvolvido em 1984:



Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo.

Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar.



Franz Kafka, escritor tcheco de língua alemã, não queria sua literatura divulgada. Pediu ao amigo Max Brod que destruísse os originais. Não foi atendido, no que fez um grande favor aos nossos pesadelos urbanos. Metamorfose e O Processo – obra inacabada, são seus livros mais conhecidos, resenhados, desenhados e roteirizados.

A Publicações Europa-América, de Portugal, reuniu nos anos 1980 em formato pocket, diversas short stories de Kafka. O livro é intitulado O Castelo e outras histórias.

Uma delas, A Toca, narrada em primeira pessoa, acompanha um animal subterrâneo não identificado e solitário em seus esforços para proteger sua toca contra estanhos. Não se alimenta, não dorme, não descansa. Não aproveita nem espaço nem tempo, pois deve permanecer em vigília eterna.

Refúgio, sanctuarium. Seja no tempo, passado; seja no espaço, presente.

Enquanto isso, sexta-feira 29 de outubro de 2010 nos aguarda com mais um festival de duplipensamentos eleitorais cometidos no último debate do segundo turno. Até lá, aguardemos. Vigiarei as entradas de meu castelo. Sem covis nem centopéias.


* Advogado, professor, cético à moda cartesiana, ledor de Orwell e Kafka desde sempre. 

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