Resenhar livros é como emoldurar quadros. Ou ainda, resenhar livros, para um advogado e professor de hermenêutica, é como emoldurar casos. No entanto, quantas vezes a leitura emprestada, de segunda mão, é recurso dos apressados e vaidosos? Não leu, mas muletou-se em opinião alheia. Outras vezes, mais vale para o escrevinhador, biografar que interpretar o texto em comento, por preguiça, falta de tempo ou de entusiasmo mesmo.
Lembro-me de uma crônica de Luis Fernando Veríssimo, publicada em uma coletânea denominada O Rei do Rock (editora L&PM,1985 salvo engano), que fazia referência a festas, citações bibliográficas e importâncias artificialmente construídas.
De um modo geral, segundo minha leitura desse texto, o importante para a conversa sem finalidade nas festas em geral não é ter lido, estudado ou refletido sobre as ideias de determinado autor, mas opinar sobre qualquer assunto utilizando conceitos e princípios deste mesmo autor, mesmo desconhecendo-o, a partir de um argumento de autoridade, ainda que fake, começando ou encerrando uma conversa com a expressão: segundo fulano de tal.
Assim, quem procede desta maneira pode posar de conhecedor de vários assuntos tendo lido apenas a orelha do livro. Você sabe. Festa, descontração, descompromisso. Ninguém vai ao Google checar o quer foi dito, etc. E assim é possível posar de intelectual sem ter lido nada do que citou. Biográfica ou bibliograficamente falando.
Pois bem. Estou lendo, desde sábado nove de outubro, um catatau denominado A Revolta de Atlas, escrito por Ayn Rand em 1957, best seller mundial com mais de 11 milhões de cópias vendidas no mundo e com cerca de mil e trezentas páginas, das quais já devorei cerca de seiscentas (hoje é dia doze de outubro). O livro em questão foi-me apresentado por uma resenha da revistaVeja de duas semanas atrás (ao que me parece, o resenhador não leu o livro).
Para quem fez graduação em História em uma universidade federal nos anos oitenta do século passado, marcada por uma leitura marxista do mundo, a por assim dizer, ideologia que embebeda – quer dizer, que embasa o livro é o supra-sumo do individualismo de direita. A apologia do dinheiro, da ambição e da ganância, emoldurada pelo individualismo mais ferrenho dão a tônica do livro.
Mas a motivação desse meu texto é outra, embora esteja no mesmo registro. Na apresentação do livro, sôfrega, trôpega, diversos capitães da indústria e do pensamento empresarial brasileiro justificam o lançamento – na verdade, relançamento – do livro em português.
Hélio Beltrão, um dos fundadores do Instituto Millenium – cujo nome projeta referência cinéfila óbvia: o seriado-fracasso de Chris Carter, spin off de X-Files – co-patrocinador desta edição, afirma ser a autora um bastião do libertarismo.
Curioso. Das leituras, estudos e reflexões a mim proporcionadas por meus professores, lá nos meados anos 1980 do século passado, liberalismo e libertarismo eram conceitos, referências e práticas muitíssimo distintas e, ao mesmo tempo, muitíssimo próximas!!
Explico. A concepção individualista do ser do homem no mundo, desde o século XIX pelo menos, se expressa tanto sob sua forma liberal quanto em vestimentas libertárias.
Até onde sei, liberalismo e libertarismo têm um ponto de partida comum, e pontos de chegada distintos: o ponto em comum é a expressão da individualidade como referência padrão do ser do homem no mundo. O ponto de divergência estaria na inflexão coletiva, no ponto de convergência entre o individual e o coletivo.
Enquanto o libertário projeta uma sociedade igualitária fruto de uma revolução proletária como ação de homens explorados para derrubar e eliminar o Estado e a propriedade privada, entendidas como fontes dos males, privações e explorações, o liberal projeta um Estado que se firma e se mantém na medida em que permite aos indivíduos explorarem suas liberdades e capacidades individuais ao extremo, como fontes primárias e únicas da riqueza, capazes de estimular o fazer dinheiro (e não ganhar dinheiro) como alfa e ômega inesgotáveis de toda a riqueza e de todo o bem que há no mundo.
Ora, a autora do livro em comento expressa uma visão idealizada, romântica do self made-man, figura lendária típica da construção da grandeza da nação norte-americana. Valores como racionalismo, empreendedorismo (palavra da moda de hoje, mas não da época de escritura do texto – 1957), honestidade, verdade, transparência, ética e egoísmo saudável saltam do texto a partir da ação do triângulo virtuoso da história.
O problema, nesse caso, é o quanto de idealismo, por um lado, e de restrições impostas pelo contexto histórico, por outro, projetam as limitações e, ao mesmo tempo, a grandeza do texto. Explico.
A trama, misto de drama, policial e ficção científica, é utilizada pela autora para a exposição de seus conceitos filosóficos sobre trabalho, lucro, dinheiro, sexo e burocracia. Sem ser panfletária, faz discurso político sério e direcionado.
Seus heróis são homens e mulher que só conhecem a materialidade de um mundo que desmorona sob o peso do avanço da burocracia socialista. São leais a seus princípios e valores, acreditam no trabalho e constroem coisas pensando na sua durabilidade.
No entanto, nesse mundo de 2010, onde a obsolescência programada é regra e não exceção, seus heróis, os empreendedores atlânticos do título, os que sustentam o mundo e seus valores não durariam mais que um ano no mercado. De qualquer forma, quando vencer o terceiro e último volume dessa obra, volto ao assunto.
*Advogado, professor e leitor compulsivo, que passa feriados e recessos lendo catataus como o resenhado acima.

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