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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

OS USOS E ABUSOS DO ESPAÇO URBANO – segunda parte

Weber Abrahão Júnior*


A praça simboliza na história das comunidades humanas o ponto de convergência de identidades e diversidades. Convergência geográfica, pois nela estiveram concentradas as instituições basilares da vida citadina: o templo religioso, a agência financeira, a cadeia pública, a prefeitura, nas cidades de tradição ibérica.

Praça de paz, praça de guerra. Na França revolucionária do final do século XVIII, na fase do Terror Jacobino, multidões indistintas apreciavam o espetáculo das cabeças decepadas rolando da guilhotina. No Brasil das Diretas Já, em meados dos anos 1980, para as praças convergiam multidões de cidadãos crédulos na panacéia das eleições presidenciais (inclusive eu mesmo...).

Os espaços de convivência urbana são assim construídos a partir de múltiplos interesses e identidades, negociados no dia a dia e, na medida do possível, republicana e democraticamente.

No entanto, nos dias correntes, as ruas foram transformadas em meros corredores de veículos em marcha sem fim (isso me lembra um desenho animado com o Pateta, “Sr. Volante e Sr. Andante”: pedestre pacífico tornado motorista furioso a um simples girar de chave no painel do carro).

As cidades, blindadas em aço e vidro, escondem-se da diversidade de expressões e manifestações públicas. O espaço republicano das praças, esvaziado de múltiplos sentidos, somente se recupera nas eventuais festividades religiosas contadas no calendário com os dedos de uma única mão.

Desse modo, vitorioso é o espaço privado das praças de alimentação dos shopping centers, vendidos literalmente como o melhor lugar de convivência possível em uma sociedade que abandonou a liberdade das ruas pela segurança movida a crédito e ar condicionado.

É bom lembrar. Não existe lugar para os tipos pitorescos das pracinhas de antigamente, com coreto e banda. Não existe lugar para o louco manso, aquele que reivindicava a posse da praça (como poeticamente frisado no belíssimo Cinema Paradiso), mas deixava todo mundo passar, graciosamente.

A praça de alimentação, em sua arquitetura convergente no interior dos templos do consumo, simula os eventos coletivos ao ar livre, como os piqueniques. Mas é unilateral em sua permissão. A diversidade se torna homogênea nos cardápios fast food.

Seria possível ressignificar os espaços privados das praças de alimentação sem correr o risco de ser expulso pela segurança privada do lugar? Estou aceitando sugestões.

Alguém aí conhece o Estatuto das Cidades? Semana que vem falamos mais e ainda deste assunto.

* advogado militante, professor universitário, freqüentador de shopping centers.

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