Weber Abrahão Júnior*
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O cinema nasceu comemorando a capacidade humana de produzir tecnologia, progresso e movimento. A chegada do trem, dos irmãos Lumière, exibido em uma feira em Paris no ano de 1895.
D.W.Griffith produziu épicos como O Nascimento de Uma Nação, para entender as transformações da contraditória grandeza dos Estados Unidos.
Entre as décadas de 1970 e 1980, Hollywood escreveu, produziu e lançou dezenas de filmes-catástrofe, um subgênero cinematográfico bastante apreciado então, e que ainda constitui importante filão dessa indústria.
O elemento temático essencial do filme-catástrofe é a ocorrência de um grande desastre tecnológico ou natural que afeta uma coletividade, causando grande comoção social e produzindo desdobramentos na mídia.
De um modo geral, esse fundamento temático era explorado a partir dos três elementos presentes na chegada do trem dos irmãos Lumière: tecnologia, progresso e movimento.
Aeroporto e O Destino do Posseidon e mesmo Comboio tratavam dos desastres tecnológicos envolvendo meios de transporte. Terremoto e Inferno na Torre lidavam com os desastres naturais.
Quando assistimos hoje ainda e mais uma vez, a crônica da tragédia anunciada trazida pela imprensa, traduzida nos deslizamentos e inundações na região serrana do Rio de Janeiro, na cidade de São Paulo e mesmo no Sul de Minas Gerais, nos perguntamos: por quê?
Aprendemos desde muito cedo que o tempo do cinema é distinto do tempo do cotidiano. Aprendemos ainda, intuitivamente, que assistir ao espetáculo da catástrofe de mentira produz o alívio do “ainda bem que não é comigo”, e ao mesmo tempo reforça os laços de humanidade que nos aproximam e nos unem, naquilo que podemos denominar solidariedade.
A minha geração aprendeu na então denominada Escola Primária, o conceito da brasilidade pacífica e cordial, ecoando equivocadamente Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre. Assim, aos trambolhões, vamos constituindo uma sociedade do riso, do improviso e da mais pura e verdadeira solidariedade.
Essa contraditória mixagem de fatalismo com improvisação continuará gerando as tragédias de verão, pelo caminhar dessa carruagem. Na bela, turística e hoje devastada região serrana do Rio de Janeiro, contavam-se até quarta-feira 18 de janeiro, quase setecentos mortos.
Karl Marx já dizia, em um texto clássico: “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Caetano Veloso, referindo-se ao ser do brasileiro, afirmou uma vez que no Brasil “tudo é construção e já é ruína”.
Não se trata aqui da busca pelos culpados ou mesmo responsáveis, que de fato existem. Esse tipo de tragédia esteve historicamente vinculada aos denominados moradores de baixa renda, ocupantes desordenados das regiões de encosta em processos de favelização.
Agora, diante do quadro desenhado pelos fatos, não se pode mais culpar a ignorância dos pobres. Todas as faixas sociais foram atingidas! Mansões e barracos foram destruídos. A lama que desce dos morros soterrou sonhos e esperanças de ricos e de pobres.
O que resta para além da solidariedade espontânea e natural, para além da espera passiva de mais um trágico verão? O que resta para além das tradicionais desculpas dos tradicionais por sua inação?
Vamos sair do cinema antes da luz se acender. A tragédia está aqui fora, precisamos mudar o final desse filme!
*Advogado militante, professor universitário.

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