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segunda-feira, 4 de julho de 2011

AO AMIGO AUSENTE

Weber Abrahão Júnior*
advocaciaweber@gmail.com

Telmo Vinícius da Silva. Companheiro Telmo. Companheiro Mazzaroppi. Irmão incondicional, apesar de tempos e distâncias. Irmão de gole e tira-gosto. Irmão mais velho em Machado de Assis, em coerência e inteligência.
Universidade Federal de Uberlândia, 1982. Curso de Licenciatura em Estudos Sociais. Início de curso e de disciplina. Aula sábado à tarde. Apresentações de praxe. Do outro lado da sala, o figura: botina, camisa de mangas curtas abotoada até a altura do peito. Grande e vasto bigode, que cofiava eventualmente.
Na sua vez, ele falou de Viçosa, dos goles e tira-gostos, e da profissão de agrônomo. E eu, do outro lado da sala, espiava aquele voraz leitor de Machado de Assis, aquele antropólogo do cerrado, aquele verdadeiro “intelectual orgânico” (por ser “minhoca”, da terra), embora eu ainda não soubesse de nada disso.
Foi amor ao primeiro gole. Amizade que nasceu após aquela aula, nas escadas do prédio do curso de História - o saudoso bloco H do Campus Santa Mônica, embalada na cachaça trazida da última viagem que ele fizera a Itapagipe. De lá, um pulinho no bar do cumpadre Luís, em frente ao portão do Campus da Educa, pra confirmar a amizade com algumas cervejas.
Uma vida inteira de amizade. Uma vida inteira aprendendo com ele as sutilezas da fina ironia. Uma vida inteira ouvindo citações machadianas em contextos os mais distintos e pertinentes possíveis.
Quando o Gentil nasceu, visita no hospital. A “Dona Maria”, esposa, amiga e companheira, feliz. E o Mazzaroppi segurando o menino com um só braço, explodindo – contido, toda a sua alegria e felicidade.
Visita em São Paulo, quando trabalhou na administração de Luiza Erundina. A fina ironia: ouvir música erudita ao lado do aeroporto, que tremia e chacoalhava com os aviões vibrando turbinas às três da manhã.
Uma enciclopédia ambulante. Uma capacidade infinita de enxergar detalhes e articulá-los em tiradas e sacadas brilhantes, onde às vezes eu só via em preto e branco. Uma impaciência infinita com desmandos, “jeitinhos” e “maracutaias”.

Um coração maior que o corpanzil, do qual se orgulhava. Como todo bom escorpiano, bom de cozinha, copo e garfo. Ultimamente inventava receitas trabalhosas, pelo amor à arte e pelo prazer em receber os amigos. Simplicidade e sinceridade extremas, às vezes de doer. Mas amigo fiel e lúcido, sempre. E como todo bom amigo, implacável e efusivo na crítica e no acolhimento.
Com o tempo, trabalho, família, outras obrigações vão conduzindo os nossos caminhos, espaçando as visitas, delineando outras situações. Mas sem perder o costume de telefonar no aniversário um do outro. Afinal, os dois intensos escorpianos, aniversariantes com apenas dois dias de diferença, a sintonia não desaparece.
Estranho e engraçado. Pela primeira vez em quase trinta anos, não nos telefonamos em novembro passado. Pela primeira vez o cotidiano engoliu esse compromisso jamais escrito ou jurado, por espontâneo e natural.
Estranho e triste. Sábado fomos até a empresa para dar um alô e, quem sabe, marcar uma reunião para goles de suco e tira-gostos mais leves, mas não “light”. Estava fechada, emendaram o feriado.
Estranho e súbito. Hoje, vinte e nove de junho de 2011, o companheiro Mazzaroppi deixou a gente. Como me disse a Alice, a “Dona Maria” hoje à tarde: “é, o seu amigo foi embora”. E eu, em um abraço de desalento e consolo, não consegui dizer quase nada, do que agora digo, mas agora falo. Não consegui oferecer uma resposta a essa partida, porque toda partida nos surpreende, por mais que seja esperada.
Os novembros de minha vida, a partir de hoje, serão um pouco mais vazios. Não espero mais aquele telefonema. Não darei mais aquele telefonema. Vai com Deus meu irmão, meu companheiro Telmo, meu amigo Mazzaroppi.

*cidadão do mundo, sócio-fundador do Clube da Anta, fabulosamente triste...

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